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JULIANA GOMES ARTE E GESTALT TERAPIA


A afinidade da Gestalt terapia com as artes existe desde o seu começo Frederick  Perls  trabalhou em teatro, teve aulas de pintura, e muitas vezes utilizava recursos de expressão artística em seus trabalhos. Laura Perls estudou dança  e Paul Goodman  era poeta e escritor.

A relação da Gestalt terapia com criatividade se inicia em suas raízes na  concepção  existencial de ser humano na qual  o ser humano é visto como estando  sempre num possível estado de refazer-se, de poder  escolher e organizar sua existência criativamente. A visão existencial afirma a capacidade humana de escolher seu próprio destino, de transcender  limites e condicionamentos.  Esta postura, no entanto não implica em que se ignore  que  existam  pressões, violências, condicionamentos, limites externos e pessoais, mas entende  que  a possibilidade de escolha, de lidar criativamente  com estes limites é sempre existente. Victor E. Frankl (1959), psiquiatra que passou parte da segunda guerra em um campo de concentração nazista, ao escrever sobre suas experiências no campo, afirma que mesmo sob condições horríveis e absolutamente desumanas como aquelas, existia a possibilidade  de uma  escolha no  como posicionar-se internamente diante daquela situação.

 Podemos dizer que quanto maior for a awareness de uma situação, maior as possibilidades  de que o ser humano possa ser realmente sujeito de sua história  ou , colocado em termos mais poéticos , artista  de si mesmo , artista de sua própria existência. É claro que neste processo, vários  fatores que advêm do ser o indivíduo um ser social (fatores históricos, sociais, políticos, econômicos,  familiares, etc), vão se manifestar e ter influência no curso e forma de nossas existências , mas o que a postura existencial afirma é que o indivíduo não pode ser visto apenas como “produto” do meio , pois com ele pode sempre interagir de forma criativa , inusitada e transformadora.

A relação da Gestalt terapia com criatividade  se estende também à  concepção gestáltica de funcionamento saudável, que em todos os escritos básicos da abordagem, é equacionada  à   funcionamento criativo.

Na Gestalt terapia, o indivíduo é visto como um ser relacional, um ser em processo de devir, em constante troca criativa com o meio.

Desejos e necessidades do indivíduo assumem dominâncias, que são o movimento de uma tensão interna de  se destacar proeminentemente formando uma figura, i.e., uma gestalt, que vai mobilizar a energia do organismo para sua completude. Quando estes processos requerem recursos do meio para sua realização, estas figuras despontam na consciência mobilizando as funções de contato do indivíduo, que são seu instrumental para ir ao encontro, sentir, avaliar e selecionar o que se encontra a sua volta. O indivíduo organiza estas experiências de forma que orientem o tipo de contato que estabelece. Todo contato é potencialmente criativo, pois lida com o novo. Se estou na praia querendo nadar , o fato de já ter nadado antes me dá suporte para que eu entre no mar, me lance nas ondas e vá para longe da beira-mar, para onde as águas são mais fundas  e “não-dá-pé”,  mas o mar que está diante de mim  é sempre novo e inesperado.

 O indivíduo então, através dos múltiplos e variados contatos que vivência, cresce e se desenvolve , idealmente assimilando o que o enriquece e nutre e alienando de si o que lhe é tóxico , respondendo às requisições , exigências e convites do meio num contínuo processo de ajustamento criativo.  .Ajustamento criativo e contato são conceitos chaves na Gestalt terapia pois implicam não apenas em  “ajustamento” mas em  “ajustamento criativo” e não só em  “contato “ mas em “contato criativo”.

Como uma planta que cresce assimilando do solo e do ar nutrientes  que lhe ajudarão a crescer, ao mesmo tempo  em que  cria e desenvolve mecanismos para se proteger de elementos que possam ameaçar sua existência, filtrando poluentes, desenvolvendo raízes fortes , fechando-se ao contato com  elementos potencialmente agressivos , criando formas inusitadas para receber o sol ou proteger-se das intempéries.

Da mesma forma crianças  escolhem estar perto de pessoas e ambientes que lhes são estimulantes e as ajudam a crescer saudavelmente, retraindo-se na medida do possível de pessoas e ambientes  tóxicos, desenvolvendo potencialidades e habilidades para responder  aos convites  e/ou  requisições das pessoas e do meio que as circundam de forma criativa.

Evidentemente  que os processos de ajustamento criativo nem sempre levam a processos de crescimento  saudáveis. Às vezes, as pressões e cargas negativas do meio são tão fortes que a pessoa desenvolve defesas que terminam por limitá-la em sua existência. Estas defesas, no entanto devem ser vistas como a melhor resposta que a pessoa pôde criar no momento e situação específica em que se encontrava . A limitação em questão não reside  no tipo de defesas criadas, mas no fato de que freqüentemente o indivíduo automaticamente as perpetua , sem dar-se conta que delas não mais necessita ,ou que conta hoje com outros recursos que os de então para proteger-se (ou, com a possibilidade de criá-los). 

Na medida portanto que  estas dominâncias vão surgindo , figuras vão se formando na consciência  , e quando bem resolvidas vão dando lugar à emergência de novas figuras num  processo contínuo e vital de formação de figura - fundo.

O que vai facilitar a resolução e emergência de novas figuras no campo perceptual são os processos de awareness, que vão ajudar a que estas figuras  se definam  com nitidez  e clareza  de forma  energetizada  em relação ao fundo  - a configuração presente da existência do indivíduo.

Awareness não se dá somente no nível cognitivo, mas também nos níveis sensório- motor , emocional e energético , e é por isto que em Gestalt terapia se fala em  “awareness organísmica”. É nos processos de awareness que o indivíduo aguça e percebe tanto os seus sentidos, como  as relações de significado que estabelece entre eles  (o “sentido” que advém da percepção dos sentidos); que tanto experiência como percebe a forma como organiza suas experiências ; que tanto configura como reorganiza suas experiências ,  e é por isto que processos contínuos de awareness são sempre acompanhados de novas   “in-formações” , i . e . , a formação de “figuras” na percepção, que criam um novo saber. A este tipo de awareness   se dá em Gestalt terapia o nome de  “awareness criativa ”.

Funcionamento saudável vai ser então  o fluxo contínuo e energizado de awareness e formação perceptual de  figura-fundo, onde através de fronteiras permeáveis e flexíveis o indivíduo interage criativamente com seu meio ambiente, desenvolvendo recursos novos para responder às dominâncias que se lhe afigurem e usando suas funções de contato para  poder avaliar e apropriadamente  estabelecer contatos enriquecedores e interrompê-los quando tóxicos e intoleráveis. Saúde seria a prevalência e relativa constância deste tipo de funcionamento.

Em contrapartida, funcionamento não saudável vai ser o funcionamento caracterizado por interrupções, inibições e obstruções destes processos, com a conseqüente formação de figuras fracas, desvitalizadas, mal definidas, nebulosas (como se estivéssemos usando um óculos de grau errado),  confusas à percepção, que ao não se completarem vão dificultando progressivamente as possibilidades de contatos criativos , vitalizados e vitalizantes com o presente.

Doença  ou patologia seria então a recorrência crônica deste tipo de funcionamento, com a conseqüente cristalização das dificuldades do indivíduo e empobrecimento de seus contatos com o mundo. Do que isto decorre?

Às vezes as figuras de nossas necessidades (físicas, emocionais ,espirituais, etc) não se configuram claramente  e não são satisfatoriamente completas . A qualidade do contato da pessoa com  sua interioridade, com os outros  e a situação presente é pobre.

O cliente que nos procura vem muitas vezes sentindo-se angustiado, ansioso, com uma sensação de vazio e falta de graça em sua vida, mas  muitas vezes não tem realmente contato com o que lhe faz sentir-se assim. Ou se tem, não consegue mobilizar-se para agir de forma a  atender à suas necessidades. Por exemplo, a pessoa pode sentir-se solitária, mas não conseguir  ir em busca de um contato humano que lhe seja acalentador.

Quando isto acontece, a energia está provavelmente presa em situações inacabadas do passado, que são experiências antigas que ficam como forma fixa no presente, obstruindo o fluxo livre e criativo de percepção e resposta às situações novas, impingindo uma avaliação arcaica às situações atuais. Como se o indivíduo usasse um óculos que colorisse  qualquer perspectiva presente ou futura com as cores das experiências passadas. Assim, no exemplo da pessoa solitária acima citado, experiências passadas doídas,  negativas e frustrantes , podem estar revestindo de desesperança a perspectiva de qualquer movimento em busca de um outro.

Da mesma forma, defesas criativamente elaboradas no passado em resposta às avaliações acuradas de situações vividas , ao se repetirem automaticamente colocam a pessoa em permanente estado de prontidão, obstruindo o fluxo do sentir e impedindo a pessoa de vivenciar situações novas que poderiam ser nutritivas e enriquecedoras.

Estas situações passadas freqüentemente estão parcial ou inteiramente fora do campo de awareness .São gestalts ocultas.  A pessoa se relaciona com os outros sem vitalidade , a energia não está lá, mas bloqueada em situações passadas mal resolvidas , e por isso chamadas de inacabadas.

Quando a figura é opaca, confusa, sem graça, desenergetizada (uma gestalt fraca), algo está sendo bloqueado, alguma necessidade orgânica vital não está sendo expressa; a pessoa não está ali inteira...( Perls, Hefferline & Goodman, 1951,pp231-232).

A terapia vem então para ajudar a  expandir o fluxo de  energia e awareness, liberar a energia retida em situações antigas e inacabadas  trazendo-a para o aqui-e-agora,  facilitando assim, através do suporte da relação  terapêutica, a elaboração interna daquilo que antes não pode ser bem elaborado ,novas experiências , e a compreensão e eventual transformação dos padrões de relacionamento do indivíduo consigo próprio, com os outros e com o mundo. 

Neste aspecto configura-se uma outra instância em que situa-se a criatividade na Gestalt terapia , ou seja, naquilo que se refere à sua prática e metodologia .A Gestalt terapia caracteriza-se por excelência  por ser uma terapia que permite ao terapeuta inventar e/ou utilizar-se com liberdade e criatividade  de técnicas e experimentos provindos de diversas origens ,desde que não se perca de vista os princípios epistêmicos fenomenológicos que caracterizam a abordagem gestáltica, os objetivos terapêuticos acima delineados , e a visão gestáltica de processo humano,o que inclui a compreensão de como se dão processos  e distúrbios de contato , percepção e awareness.

Se Fritz Perls tornou certas técnicas populares, o terapeuta gestáltico não necessita obrigatoriamente  utilizá-las,  nem tão-pouco restringir-se a elas.

Assim o terapeuta gestáltico pode trabalhar com os experimentos de contato e awareness  que se fizeram conhecidos nos trabalhos de Fritz Perls e outros gestaltistas da época, ou inventar outros. Pode trabalhar com sonhos, visualizações, fantasias, mitos,  contos, dramatizações, exercícios de  relaxamento e sensibilização  corporal, atividades expressivas tais como dança, desenho, modelagem, poesia, experimentos de  dinâmica grupal , de meditação , etc , etc  -      ou com nada disto.  Realmente a Gestalt terapia , ao contrário do popularmente apregoado, não se caracteriza por  técnicas específicas, mas sim por sua postura na relação terapêutica , por sua postura na eventual  utilização de técnicas e experimentos, e na sua compreensão dos objetivos do trabalho terapêutico.

Assim, a relação da Gestalt terapia com criatividade se dá em três instâncias: na sua concepção existencial de ser humano, na sua concepção de saúde e funcionamento saudável, e na sua metodologia.

 Finalmente, gostaria de concluir dizendo que como Gestalt terapeuta  tenho por “profissão de fé”, a crença profunda que a função da terapia é sobretudo, a de ajudar o indivíduo a  poder  instalar ou restaurar  um fluxo de interação criativa  com o mundo , ampliando assim, nas palavras de Ostrower (1977) , sua abertura para a vida.

Palestra apresentada em 1995, no I Encontro Goiano de Gestalt Terapia, publicada em 1995 na Revista do ITGT (Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt Terapia) nº 1, Goiânia, 1995.







Textos
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Expressão Artística

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